terça-feira, 29 de junho de 2010

Confusões tucanas

Ao fazer da crítica ao Banco Central o destaque de sua campanha, o ex-governador José Serra não deve ter conseguido um voto a mais e, provavelmente, perdeu parte dos que acumulara, como atestam as pesquisas eleitorais. Como desafiante de uma candidata apoiada por um presidente popular, Serra parece um candidato sem discurso.

Em situação de juros baixos, o tema já não seria empolgante. Com a economia crescendo, a crítica ao arrocho monetário e a defesa do câmbio desvalorizado produzem um discurso desconexo. Para a grande maioria dos assalariados, real caro, intuitivamente, implica maior poder de compra. Quanto aos juros, numa sociedade com carências de consumo e em transformação social, as pessoas olham para a oferta de crédito e para o tamanho da prestação em relação ao salário.

O resultado da pregação supostamente desenvolvimentista de Serra tem conduzido a situações esquisitas. Ela fez da ex-ministra Dilma Rousseff a campeã da estabilidade, já que lhe deu o argumento para assegurar a continuidade de tudo o que está dando certo com Lula.

Isso inclui o BC, ainda que, no íntimo, ela possa concordar com parte das críticas do adversário. Ambos atribuem à política fiscal protagonismo maior que à política monetária no encaminhamento das distorções da macroeconomia. O problema é que o fiscal amarfanhado no Brasil é sequela das contradições da governabilidade, o que faz do presidente de turno aliciador e aliciado dos interesses difusos representados pelos partidos no Congresso. Como romper o esquema?

É duro ser oposição
A formatação da política de modo instrumental influencia o jeitão da economia — e não há como ser diferente, se 40% do PIB dependem diretamente do Estado e praticamente a totalidade do financiamento de longo prazo, afora a parcela do capital estrangeiro, é suprida pelo BNDES. Mais: o crédito rural é prioridade do Banco do Brasil, e saneamento e habitação popular, da Caixa Econômica Federal.

Com essa configuração, é difícil fazer oposição no Brasil. E mais ainda quando o presidente faz um governo bem avaliado, embora haja pontos fracos, o maior deles, talvez, o fato de Lula enfatizar uma política distributiva e não desenvolvimentista, no sentido chinês da expressão, com a prioridade do investimento sobre o consumo.

BC ajeita a bagunça
O que sobra nesse cenário em que a demanda agregada é bombada por todos os lados das operações do Estado, de transferências de renda ao gasto discricionário, do crédito público aos índices de aumento dos salários do funcionalismo, é apenas o Banco Central.

Seu papel é viabilizar o distributivismo com estabilidade. Lula entendeu, em sua reeleição, que o eleitor, sobretudo o de menor renda, aprecia a distribuição direta de benefícios, mas intui o valor da estabilidade dos preços. Tal percepção aparece em vários estudos sobre os fatores determinantes do voto em 2006.

A tábua de salvação
De algum modo, Serra navega contra essa corrente. É provável que sua crítica tenha a ver com as contradições do desenvolvimentismo regado a expansão do consumo e a baixa taxa de poupança nacional — entendida como a margem para a expansão do investimento sem legar inflação e deficits externos. Só que, nesse modelo, o BC é a tábua de salvação dos conflitos, não a sua causa. E isso ou Serra não entendeu ou não quer entender ou não sabe se explicar.

Coadjuvante eleitoral
Problema dele. Serra começa a ser criticado por aliados em tom de frustração. Se já era difícil conciliar o dirigismo de Serra com o modelo de governança pública mais pró-mercado seguido no governo FHC e defendido pela maioria dos economistas simpáticos ao PSDB, com a crítica à autonomia do Banco Central, e não apenas aos juros altos, ele se isolou. Para se reconciliar, terá de esmiuçar a sua crítica, o que o distanciará da versão que tenta construir para si de que estaria mais preparado que Dilma para continuar o lulismo.

Se ela não revidar, Serra terá como oponente é Lula em pessoa. Já o tem, na prática, já que Dilma até aqui não se avexa em ser só um coadjuvante eleitoral. O risco é que também ela se convença de que está tudo ok, como andou sugerindo ao falar em desenvolvimento com consumo em expansão e distribuição de renda. Com o investimento no topo das prioridades, ela poderá escolher mais outra prioridade.

Querer todas de uma vez é um sonho que nem um BC malvado poderia viabilizar sem ameaçar o que Lula tanto acalenta: a estabilidade.Antônio Machado

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